do templo funerário de Ramsés III naquele local. É sobretudo em Médinet-Habu — observa Montet — que nos damos conta do aspecto que estas cidades fechadas podiam apresentar quando foram construídas. Uma barca depunha o visitante junto de uma escadaria dupla; depois transpunha-se uma muralha muito baixa, flanqueada por duas guaritas, guarnecida de seteiras e separada da grande muralha de adobe por uma vereda destinada às rondas. Esta era interrompida por uma porta fortificada que se assemelhava a um migdol sírio. Eram duas torres altas e simétricas, separadas por um intervalo de seis metros que precedia um edifício cuja entrada tinha a largura suficiente para deixar passar um carro. Os baixos-relevos que ornavam as paredes exaltavam o poder do faraó. Os modilhões eram suportados por cabeças dos eternos inimigos do Egito: líbios, árabes, negros e núbios. Uma pessoa devia sentir-se pouco à vontade entre estas muralhas. Passada a porta, o visitante encontrava-se num pátio espaçoso, limitado ao fundo pela parede de uma terceira muralha que cercava o templo, o palácio, o harém, os pátios e os edifícios. Pequenas habitações apertadas umas contra as outras, de uma parte e de outra da álea central, bordavam por três lados esta terceira muralha. Os sacerdotes do templo e numerosos laicos formavam a população permanente da pequena cidade onde o rei residia quando vinha da margem esquerda com as suas mulheres e os seus numerosos criados.
O aspecto exterior de tais cidades era austero, mas em seus interiores palácios dourados, casinholas cinzentas e maravilhas arquitetônicas se misturavam de maneira curiosa. Por vezes príncipes e princesas cruzavam as avenidas e os pátios e cânticos e músicas festivas ecoavam nos palácios. Em geral, porém, o movimento era apenas de rebanhos, de filas de escravos carregando fardos na cabeça ou nas costas, de soldados, de funcionários do fisco, de pedreiros e artífices, de estudantes e aprendizes. E todos circulavam em direção às oficinas, aos armazéns, às cavalariças, aos matadouros e aos locais de aprendizagem em meio a muita poeira e gritaria.
Na região do Delta também se ergueram cidades importantes. Uma delas chamava-se Hat-uârit e era uma velha cidade de teólogos, centro do culto do deus Seth. No tempo dos Hicsos foi capital destes invasores e ficou estacionária quando eles foram repelidos do Egito. Ramsés II (c. 1290 a 1224 a.C.) reviveu-a, transformando-a em residência real. Aqui também o
templo e outros edifícios estavam cercados por uma grande muralha de tijolos interrompida por quatro portas, das quais partiam canais e estradas para os quatro pontos cardeais. Leões com rosto humano, — conta Montet — de expressão terrível, de granito preto, esfinges de granito rosado encaravam-se ao longo das áleas calcetadas com blocos de basalto. Às portas velavam leôes deitados. Diades e Tríades, colossos de pé e sentados, muitos dos quais rivalizavam com os de Tebas e ultrapassavam os de Mêfis, encontravam-se alinhados diante dos pilones. O palácio resplandecia de ouro, lápis-lazúli e turquesa. As flores vicejavam por todo o lado. Estradas umbrosas atravessavam os campos admiravelmente cultivados. As mercadorias desembarcadas da Síria, das ilhas e do Ponto
empilhavam-se nos armazéns. Destacamentos de peôes, companhias de archeiros, os carros, e as equipagens da frota, tinham os seus quartéis e depósitos perto do palácio.
Além da população egípcia, líbios e negros ali conviviam misturados aos asiáticos e a outros nômades que não desejavam abandonar o Egito. Assim, aos poucos a cidade ia crescendo e criando novos bairros com seus próprios templos cercados por muralhas de tijolo. Um cemitério surgiu, porque aqui não havia o deserto onde os mortos pudessem ser enterrados. Os túmulos das pessoas e dos animais sagrados eram erguidos na cidade, fora de portas ou dentro dos muros, bem próximos ao templo. Por falta de espaço eram túmulos pequenos sem a grandiosidade, por exemplo, dos de Mênfis.
As paisagens não eram áridas. Ramsés III (c. 1194 a 1163 a.C.) foi um dos faraós que se preocupou em ampliar jardins, adornar estradas com flores e plantar pomares com vinhas e olivais. Assim, as muralhas de tijolo contrastavam com o verde da vegetação e as pessoas podiam abrigar-se à sombra das grandes árvores; à beira do Nilo. Nos pátios dos templos as esculturas eram valorizadas pelas flores.
O abastecimento de água das cidades era feito por poços. Evitava-se assim o trabalho de buscar o líquido fora dos muros. Tanques de pedra permitiam que se obtivesse água descendo uma escada. Um destes poços, com cinco metros de diâmetro, encontrado pelos arqueólogos em um templo da cidade de Pi-Ramsés é descrito por Pierre Montet, que fala também na descoberta de um tipo de
canalização que talvez servisse para o abastecimento de água: Descia-se ao fundo do tanque por uma escada coberta de quarenta e quatro degraus, em dois corpos separados por um patamar para descansar. No próprio poço podia-se continuar a descer por uma escada em forma de ferradura e encher os jarros mesmo durante o período em que a água era escassa. Fora desta época era mais simples fazer subir a água até ao tanque por meio de um shaduf que uma calha de pedra ligava a um segundo
tanque existente no próprio templo. Na parte oriental da cidade descobrimos várias canalizações de cerâmica de diferentes modelos, profundamente enterradas. A mais importante era composta de vasos sem fundo que engrenavam uns nos outros e que foram cuidadosamente ligados com cimento. Não foi possível até agora seguir estas canalizações em toda a sua extensão, descobrir o seu ponto de partida e o seu ponto de chegada. Não só não pudemos datá-las, mas ignoramos até se serviam para fornecer água potável ou para esgoto das águas já utilizadas. No entanto, é importante assinalar a existência destes trabalhos que provam que a administração faraônica não era indiferente nem ao bem-estar dos habitantes nem à saúde pública.