A Â B C
C F G H
H H I J
K L M N
O P Q R
S T T W
Y Z
  A tabela ao lado mostra os sinais monoconsonantais ou, por assim dizer, alfabéticos, da escrita egípcia. As letras indicam o valor sonoro aproximado de cada figura. O Â indica um som que só existe nas línguas semíticas: é o ayin hebraico. O C soa como em ciência, enquanto que o C soa como em Chile. O H indica um H gutural, enquanto que o H indica um H áspero. O L só apareceu na época ptolomaica. O M também aparecia na forma de um sinal hierático bem simplificado: dois traços horizontais paralelos unidos, à esquerda, por um traço vertical inclinado.

A partir do século XVIII de nossa era começaram a surgir na Europa objetos de arte egípcios, oriundos principalmente de escavações realizadas em Menfis, e encarados ainda como meras curiosidades. Amuletos, pequenas estatuetas funerárias, fragmentos de manuscritos e sarcófagos de pedra, alguns carregados de longas inscrições hieroglíficas, foram, pouco a pouco, chamando a atenção dos eruditos para o sistema de escrita dos antigos egípcios. Referências esparsas feitas por autores gregos e latinos sobre a natureza dos sinais empregados pelos egípcios aumentavam ainda mais a curiosidade a respeito do assunto. A escrita dos obeliscos que haviam sido trazidos

para Roma começou a ser estudada e assim surgiu um novo ramo da arqueologia o qual, entretanto, permaneceu estéril por muito tempo em virtude da falsa direção que os eruditos imprimiram às suas pesquisas. Tomou-se como regra geral aquilo que os autores clássicos haviam dito referindo-se apenas a uma determinada classe de sinais e concluiu-se que cada caracter hieroglífico representava uma idéia distinta, ou seja, que a escrita era meramente ideográfica e não reproduzia — de forma alguma — o som das palavras da língua falada.

Baseado nesse princípio equivocado, o jesuíta Athanasius Kircher (1602-1680), conhecido por ter sido o inventor da lanterna mágica, publicou, sob o título de Oedipus Aegyptiacus, pretensas traduções dos textos hieroglíficos esculpidos nos obeliscos romanos. Champollion acusou-o de ter abusado da boa fé de seus contemporâneos ao apresentar traduções com frases incoerentes, repletas de misticismo e às vezes obscuras e ridículas, nas quais nem o autor acreditava, pois muitas vezes ousou apoiá-las sobre citações de autores que jamais existiram. Uma de tais traduções, de um conjunto de sete hieróglifos, dizia: O criador de toda a fecundidade e todo o crescimento é o deus Osíris, cuja força vivificante tira Santa Mofta do Céu para seu império. A tradução real, hoje se sabe, era: Autocrata, senhor absoluto.

O fato é que durante muito tempo se acreditou que a escrita egípcia só era compreendida outrora pelos iniciados religiosos e que seu teor referia-se unicamente a assuntos misteriosos, objeto de estudos reservados a uma pequena casta privilegiada, e continha somente doutrinas ocultas e filosofia egípcia. Considerar a escrita totalmente ideográfica só fazia reforçar a tese de que se tratava de uma doutrina sacerdotal secretíssima explicada através de enígmas. Partindo de tais hipóteses, os estudos dos hieróglifos não podiam mesmo fazer qualquer progresso. Faltava aos pesquisadores a única coisa que poderia levar ao sucesso da empreitada, isto é, o conhecimento prévio da língua falada pelos antigos egípcios. Nem se cogitava em usar o conhecimento da língua como ferramenta da decifração dos hieróglifos, embora se soubesse, mesmo nos primórdios do século XVII da nossa era, que os manuscritos coptas trazidos do Egito por viajantes haviam sido concebidos na língua egípcia escrita com caracteres legíveis, já que o alfabeto copta, ou seja, o alfabeto adotado pelos egípcios convertidos ao cristianismo, nada mais era do que o alfabeto grego acrescido de alguns outros símbolos.

O padre Kircher publicou, em 1643, sob o título de Lingua Aegyptiaca Restituta, o texto e a tradução de manuscritos árabes recolhidos no Oriente que continham a gramática da língua copta e um vocabulário copta-árabe, obra que, apesar das imperfeições que apresentava, muito contribuiu para difundir o estudo da lingua copta. O estudo desse idioma propagou-se na Europa atrelado ao interesse de interpretação da literatura bíblica. Estudiosos demonstraram a vantagem que a filologia poderia retirar das noções encerradas nos textos coptas e explicavam por tais meios um bom número de antigas palavras egípcias citadas por escritores gregos.

Um filologista de nome Paul-Ernest Jablonsky, homem dotado de vasta erudição, tentou explicar o sistema religioso do antigo Egito reunindo e classificando as passagens esparsas dos autores gregos e latinos referentes às atribuições das divindades egípcias e interpretando os nomes de tais divindades à luz dos vocabulários coptas. Tal tentativa, aparentemente bem fundamentada, não obteria os resultados almejados pois, na verdade, os escritores gregos e latinos apresentaram apenas noções parciais, locais e incompletas do sistema religioso egípcio e a interpretação dos nomes das divindades feita por Jablonsky baseou-se em pequeno número de textos coptas, o que não garantiu a inclusão no estudo de todos os radicais das palavras que formavam os nomes dos deuses egípcios e também porque os gregos e latinos ao transcreverem os nomes fizeram alterações substanciais neles.

Na segunda metade do século XVIII de nossa era surgiram novas tentativas do mesmo gênero e todas infrutíferas. O estudo dos hieróglifos acabou caíndo em descrédito e os resultados propalados atingiram as raias da estravagância. Segundo uns, todas as inscrições egípcias eram relativas à astronomia. Outros achavam que referiam-se aos preceitos sobre o conjunto ou os detalhes dos trabalhos nos campos e que cada divindade egípcia representava uma das épocas da faina agrícola. Houve quem tentasse provar a origem comum dos povos da China e do Egito e que a escrita chinesa era proveniente da escrita egípcia e, então, pretendeu-se interpretar os hieróglifos com a ajuda unicamente dos dicionários da língua chinesa. Finalmente, um excêntrico pretendeu ter provado, racionalmente, que as diferentes imagens que formam os hieróglifos nada tinham a ver com a escrita egípcia e apenas eram simples ornamentos sem qualquer significado a não ser o estético.

Por essa época, um estudioso dinamarquês, de nome Zoëga, profundo conhecedor dos clássicos gregos e da língua copta, publicou uma grande e importante obra sobre os obeliscos de Roma, na qual reuniu os principais resultados de suas pesquisas sobre o antigo Egito. Ao tratar dos hieróglifos esculpidos sobre aqueles monumentos, procurou compatibilizar entre si as noções fornecidas pelos escritores da antiguidade sobre o sistema gráfico dos egípcios. Ainda que não tenha acertado completamente, conseguiu reduzir a questão a seus termos reais e foi o primeiro a supor, vagamente, a existência de elementos fonéticos dentro do sistema de escrita egípcia. Entretanto, não deu extensão maior a tais elementos e reduziu-os a alguns caracteres que precediam as expressões correspondentes, como se os egípcios usassem o mesmo método do nosso jogo conhecido como carta enigmática.

Esse autor, que conhecia todos os tratados sobre interpretação dos hieróglifos publicados antes dele, combateu a idéia tão difundida de que aqueles sinais eram empregados por um pequeno número de adeptos e destinados apenas à transmissão de segredos sacerdotais. Ele intuia que a mesma escrita usada nos monumentos, conhecida e praticada pela parte letrada da população egípcia, também fora utilizada na redação habitual de textos relativos a todos os assuntos, sacros ou profanos. Intuia, também, que uma escrita tão complicada e que exigia conhecimentos de desenho não poderia ser introduzida facilmente no seio da massa da população. De fato, hoje sabemos que os egípcios lançaram mão de dois métodos taquigráficos — o hierático e o demótico — empregados com o objetivo de traçar os caracteres mais rápida e facilmente. Apesar de seus esforços, Zoëga não chegou a bom termo na decifraço dos hieróglifos porque não abandonou totalmente o falso ponto-de-vista de que a maior parte dos sinais da escrita egípcia eram meramente ideográficos.

A publicação da obra de Zoëga sobre os obeliscos se deu um pouco antes da expedição de Napoleão ao Egito. Tal empreitada bélica e científica, já que vários eruditos avançavam junto com a tropa, deu um vivo impulso às pesquisas arqueológicas sobre o império dos faraós. Os sábios franceses, por meio de desenhos fiéis, fizeram a Europa conhecer a importância e o prodigioso número de monumentos antigos que existiam no Egito. Visões em perspectiva, plantas e cortes mostravam o conjunto e os detalhes dos templos, palácios e túmulos e foram publicados sob o título de Description de l'Egypte. Pela primeira vez o mundo erudito tinha uma idéia fiel da civilização egípcia e da inesgotável riqueza dos documentos históricos contidos nas inúmeras esculturas e ornamentos de tão imponentes construções. Saltava ainda mais aos olhos a necessidade de entender o sistema de escrita egípcio. Por sua vez, a abundância dos textos recolhidos forneceu precioso material para novas pesquisas sobre o assunto.

Um verdadeiro frenesi percorreu os círculos cultos da Europa quando se divulgou a descoberta de um monumento bilingue encontrado em Roseta. Em agosto de 1799 um oficial de nome Bouchard, que fazia parte das tropas francesas que ocupavam a cidade egípcia de Roseta (Rachid, em árabe), à beira do braço oeste do Nilo, em escavações realizadas em um antigo forte, encontrou uma pedra de granito negro, de forma retangular, na qual uma das faces, bem polida, mostra três inscrições em três caracteres diferentes. A inscrição superior, destruída ou fraturada em grande parte, é uma escrita hieroglífica; o texto intermediário contém uma escrita egípcia cursiva e a terceira e última divisão da pedra é ocupada por uma inscrição em língua e caracteres gregos. A tradução desse último texto, contendo um decreto do corpo sacerdotal do Egito, reunido em Mênfis, em 196 a.C., para conferir grandes honras ao rei Ptolomeu V Epifânio (205 a 180 a.C.), deu a plena certeza de que as duas inscrições egípcias superirores continham a expressão fiel do mesmo decreto em língua egípcia e em duas escritas egípcias distintas: a escrita sagrada em hieróglifos e a escrita vulgar em demótico.

É compreensível o entusiasmo pelo achado: a posse de textos egípcios acompanhados por sua tradução em uma língua conhecida vinha, enfim, estabelecer pontos de partida e de comparação tão numerosos quanto incontestáveis. Isso poderia levar com segurança ao conhecimento do sistema gráfico egípcio, através da análise combinada das duas inscrições egípcias com a inscrição grega. As hipóteses foram abandonadas e os estudiosos concentraram-se na pesquisa dos fatos. Marcharam, então, ainda que lentamente, em direção aos resultados positivos.

Em 1802 um ilustre erudito francês, o barão Silvestre de Sacy, examinou o texto demótico da pedra de Roseta e comparou-o com o texto grego. Nos resultados que publicou estabeleceu as primeiras bases da decifração do texto intermediário ao determinar os grupos de caracteres que correspondem aos nomes próprios de Ptolomeu, Arsinoe, Alexandre e Alexandria, mencionados em diversas ocasiões no texto grego.

Logo após um orientalista sueco, de nome Johan David Ackerblad (1763-1819), homem de grande erudição e profundo conhecimento do copta, também comparou os dois textos e publicou uma análise dos nomes próprios gregos citados na inscrição em demótico e de tal análise extraiu um curto alfabeto egípcio demótico ou popular. Entre os dez nomes que ele identificou estavam o de Berenice e de Ptolomeu e também reconheceu, através do conhecimento que tinha de seus equivalentes em copta, as palavras gregos e templos e os pronomes lhe e seu. Entretanto, esse pesquisador, embora tenha sido feliz ao analisar os nomes próprios gregos, não obteve resultado ao tentar aplicar à leitura das outras partes da inscrição em demótico o conjunto de sinais dos quais ele acabara de constatar o valor na expressão escrita desses nomes próprios gregos. Não tendo deduzido, de um lado, que os egípcios ao escreverem as palavras suprimiam em grande parte as vogais mediais e não supondo, por outro lado, que muitos dos sinais empregados no texto podiam pertencer à classe dos caracteres ideográficos, o sueco, cansado de vãs tentativas, colocou a pesquisa de lado. Entretanto ficou provado, pelos estudos do erudito francês e do orientalista sueco, que a escrita vulgar dos antigos egípcios exprimia os nomes próprios estrangeiros por meio de sinais verdadeiramente alfabéticos.

Seria compreensível que o primeiro texto a ser estudado na pedra de Roseta fosse o que está grafado em hieróglifos. Seria lógico compará-lo com o texto grego para se obter algumas noções exatas sobre a essência daqueles sinais. Entretanto, não foi o que ocorreu. Provavelmente a demora no estudo do texto em hieróglifos foi devido ao mau estado da pedra, pois as fraturas fizeram desaparecer uma grande parte daquela escrita. Para se ter uma idéia, basta dizer que enquanto o texto em grego apresenta 54 linhas, o texto em hieróglifos tem apenas 14. Se esse setor estivesse inteiro, com certeza teria sido poupado muito trabalho aos pesquisadores.

Os autores da obra Description de l'Egypte não se ocuparam dos diversos tipos da escrita egípcia. Entretanto, publicaram excelentes fac-símiles de manuscritos hieroglíficos e hieráticos, bem como cópias bastante fiéis de um grande número de inscrições encontradas nos monumentos egípcios. Reconheceram, no meio delas, a existência de alguns caracteres simbólicos mencionados pelos autores gregos, mas trataram apenas de forma genérica as questões relativas à natureza e às combinações dos sinais elementares.

Um cientista inglês, Thomas Young (1773-1829), soube aplicar ao exame comparativo dos três textos da pedra de Roseta um espírito de método geralmente só adotado nas ciências físicas e matemáticas. Ele reconheceu nas partes ainda existentes das inscrições demótica e hieroglífica, através de comparação totalmente material, os grupos de caracteres correspondentes às palavras empregadas na inscrição grega. Tal trabalho, resultado de uma abordagem sagaz, estabeleceu finalmente algumas noções exatas sobre os dois ramos do sistema gráfico egípcio e de suas respectivas ligações. Ele acabou fornecendo provas materiais da assertiva dos antigos de que os egípcios empregavam caracteres tanto figurativos quanto simbólicos na sua escrita. Mas a natureza íntima dessa escrita, suas relações com a língua falada, o número, a essência e as combinações de seus elementos fundamentais ainda restavam incertos e hipotéticos.

Young, assim como os autores da Description de l'Egypte, não separou de maneira marcante a escrita demótica da hierática e encarou como semelhates dois sistemas de natureza inteiramente opostos. Em 1816 ele acreditava na natureza alfabética da totalidade dos sinais que formavam o texto intermediário da pedra de Roseta e se esforçou em determinar, por meio do alfabeto estabelecido por Ackerblad acrescido de vários novos sinais aos quais ele atribuiu um valor fixo, a leitura de 80 grupos de caracteres demóticos extraidos daquela estela. Por outro lado, em 1819, abandonando inteiramente a idéia da existência real de sinais verdadeiramente alfabéticos no sistema gráfico egípcio, Young afirmou, ao contrário, que a escrita demótica e a dos papiros hieráticos pertenciam, assim como a escrita hieroglífica, a um sistema composto de caracteres puramente ideográficos. Entretanto, convencido de que a maior parte dos nomes próprios mencionados no texto demótico da pedra eram suscetíveis de uma espécie de leitura com o alfabeto de Ackerblad, ele concluiu que os egípcios, somente para transcrever os nomes próprios estrangeiros, usavam, como os chineses, sinais realmente ideográficos mas desviados de sua expressão usual para que, incidentalmente, pudessem representar sons. Persuadido disso, o cientista inglês tentou analisar dois nomes próprios escritos em hieróglifos: Ptolomeu e Berenice. Tal análise, baseada em um falso princípio, em nada resultou. Apesar de tais titubeios, Young demonstrou que a hipótese aventada por outros estudiosos de que os grupos de hieróglifos escritos no interior de anéis ovalados, os assim chamados cartuchos, eram nomes de reis, estava correta.

Nessa época a questão relativa à natureza elementar do sistema hieroglífico permanecia inalterada: os escribas egípcios grafafam de forma ideográfica ou exprimiam as idéias anotando o próprio som das palavras? Os trabalhos de Champollion demonstraram, então, que a verdade se achava precisamente entre essas duas hipóteses extremas, ou seja, o sistema gráfico egípcio como um todo empregava, simultaneamente, sinais ideográficos e sinais representando sons. Ele demonstrou, também, que os caracteres fonéticos, da mesma maneira que as letras do nosso alfabeto, longe de se limitarem apenas a exprimir os nomes próprios estrangeiros, formavam, ao contrário, a parte mais considerável dos textos hieroglíficos, hieráticos e demóticos egípcios e representavam, combinando-se entre si, os sons e as articulações das palavras próprias da língua falada egípcia. Tais pontos fundamentais foram expostos pelo decifrador dos hieróglifos pela primeira vez em 1824, na sua obra intitulada Précis du système hiéroglyphique. Esses princípios foram aplicados a inumeráveis monumentos quando Champollion passou 16 meses por entre as ruínas do Alto e do Baixo Egito e revelaram-se exatos e precisos. Ao aplicá-los, ele foi capaz de ler as porções fonéticas dos textos, que na realidade constituem três quartas partes ou mais de cada texto hieroglífico.

Disso me resultou a plena convicção — afirmou Champollion — de que a língua egípcia antiga não difere em nada de essencial da língua vulgarmente chamada copta; que as palavras egípcias escritas em caracteres hieroglíficos sobre os mais antigos monumentos de Tebas e em caracteres gregos nos livros coptas têm um valor idêntico e não diferem em geral a não ser pela ausência de certas vogais mediais, omitidas, segundo o método oriental, na ortografia primitiva. Os caracteres ideográficos ou simbólicos, misturados aos caracteres de sons, são bastante diferentes; eu pude deduzir as leis de suas combinações, seja entre eles, seja com os sinais fonéticos e cheguei sucessivamente ao conhecimento de todas as formas e notações gramaticais expressas nos textos egípcios, sejam hieroglíficos, sejam hieráticos.

O texto acima é uma tradução livre de trechos do discurso que Champollion proferiu, em 10 de maio de 1831, no Collège Royal de France, na aula inaugural de seu curso sobre a gramática egípcia.



A Decifração dos Hieróglifos — Parte 2

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